Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Um brinde de ano novo!

O que tem a ano novo de mágico é que ele nos faz refletir. Parar um pouco com a rotina.
Também é um momento de recomeçar, como uma espécie de “segunda chance”.
Sem isso, acho que nossas máquinas orgânicas já teriam pifado.
Mas o ideal mesmo seria que fizéssemos esse “ritual de passagem” de um ano para outro, mais seguido.
Que bom que algumas vezes por mês, quem sabe uma vez por semana, por exemplo, nos propuséssemos a parar um pouco com nossa correria desenfreada e refletíssemos. Sabe como é. Fazer um balanço mais vezes do que uma vez por ano, para que ao final não nos sintamos tão sobrecarregados e com tantas lacunas a preencher.
Bom seria também que conseguíssemos em nossa agenda, mais espaço para a família, para os amigos, para as reconciliações... Que tudo isso não fique guardado para as festas de Natal e Ano Novo.
A eterna busca pelo amor, pelo sucesso, pela felicidade, às vezes faz com que alcancemos tudo isso e não desfrutemos, porque no fundo, acreditamos que nada disso realmente existe ou estamos ocupados demais para perceber o que já alcançamos. Como nos disse Fernando Pessoa “Felicidade existe, mas nunca a encontramos. Porque ela está sempre apenas onde a pomos. E nunca a pomos onde nós estamos”.
Seria bom que em alguns momentos pudéssemos nos dar o prazer de estar junto com a felicidade conquistada que nada mais é do que a simplicidade dos momentos entre amigos, das brincadeiras com nossos filhos, do namoro eterno com nossos maridos e esposas, da sensação de dever cumprido, da prática da caridade, da oração de agradecimento sincero e da possibilidade de repetir tudo isso amanhã, e depois, e depois, e depois...
Ótimo seria, se não precisássemos sempre dessa segunda chance, mas o certo é que ainda somos imperfeitos e fatalmente vamos errar. Mas as mudanças radicais não precisam ficar para o Ano Novo. Podem começar dia-a-dia ou a cada semana. Sempre que estivermos prontos para ela.
Sim, porque de nada adianta “resetar” tudo se não estivermos prontos de corpo e alma. Nem no Ano Novo.
Nesse ano, quem sabe consigamos a paz tão almejada e é o que sinceramente desejo a todos, mas mais do que isso, desejo que todos consigam um encontro com a felicidade que certamente está lá onde foi colocada por nós.

Gilda Satte Alam Severi Cardoso

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Atravessando a ponte

A noite estava clara e fria. Já passava das nove e eu havia deixado o trabalho. Comecei o trajeto de sempre, mas naquela noite tudo parecia mais silencioso. Nenhum carro. As casas estavam adormecidas, com seus grandes olhos fechados. Nenhum burburinho de estudantes. Eu podia até ouvir meus passos na calçada úmida. Para me distrair comecei a rememorar o dia, buscando nele acontecimentos incomuns. Varri a memória e não achei nada mais do que um ordinário dia, com pessoas comuns e mal humoradas, entrando e saindo sem sequer um “bom dia!” Eu era invisível. No início me arrumava. Gastei o salário de três meses em roupas, sapatos e até perfume. Cheguei a me apresentar para alguns dos professores que mais freqüentavam o local, mas o gelo deles foi tanto que nunca mais ousei tentar nada.
Comecei a ler. Lia tudo. Consumi o material, estante após estante, e quase me sentia parte do universo de Madame Bouvary, Gregor Samsa ou Dom Casmurro.
Eles, os livros, eram os responsáveis por eu acordar todos os dias às 6 da manhã e caminhar 45 min até a Universidade onde eu trabalhava como bibliotecária.
Á noite, após terminar minhas tarefas eu lia mais um pouco e depois saía para mais 45 min de caminhada solitária em direção a minha casa vazia.
Eu morava sozinha, passando a Ponte do Sossego numa pequena casa com quatro cômodos e um jardim mal – cuidado.
Meus pais já eram falecidos e eu não tinha tido a sorte de encontrar um marido. Agora, com 45 anos já não me interessava mais.
Interrrompi minhas reminiscências com o barulho de passos vindo de trás. Quem seria? Com bastante medo virei e ... Nada. Não havia ninguém. Segui caminhando, mais apressada e assustada. Apurei os ouvidos para não ser surpreendida. Após dobrar a esquina da Redenção novamente ouvi passos, agora mais perto. Gelei. Meu coração acelerou. Só faltava a essa altura da vida ser atacada por um tarado.
Acelerei o passo, quase correndo, e vez ou outra olhava para trás. Numa dessas viradas, acabei me chocando com alguém. Minha bolsa caiu espalhando sacolas plásticas, livros, óculos, chaves, níqueis. Tudo pelo chão e eu a catar, ainda zonza com o encontrão. Vi que uma pessoa me ajudava. Tinha as mãos gordinhas, bonitas, quase femininas. Comecei a olhar para cima em direção ao desconhecido e me deparei com uma figura estranha. Simpática. Mas estranha. Era um homem de meia-idade, um pouco cheinho. Usava bigode e vestia algo apropriado para o século retrasado. Ele sorriu, se desculpando. Percebi um sotaque francês. Talvez fosse isso, era um estrangeiro. Eles se vestem de forma esquisita.
Agradeci, um pouco desconcertada, e ele falou:
- Honoré, muito prazer.
Respondi:
- Clarissa.
Arrumei minhas coisas e o senhor Honoré se propôs a me acompanhar.
Seguimos e logo estávamos conversando como se fôssemos velhos amigos.
Ao chegarmos à ponte, Honoré disse que não iria atravessá-la. Despedimos-nos.
Dormi muito bem naquela noite. Talvez a solidão pesasse mais do eu que imaginava.
No dia seguinte acordei na hora de sempre, preparei o café cantarolando, coisa que já não fazia há muito, e fui para o trabalho.
Na saída, na mesma esquina da noite anterior lá estava o Senhor Honoré. Caminhamos juntos até à ponte.
Ele era uma pessoa de muita cultura. Nasceu na França, se formou em direito. Gostei disso. Era advogado.
Foram 02 semanas de encontros diários, sempre da mesma esquina até a ponte. Honoré nunca atravessava a ponte.
Num dos encontros Honoré me falou de um grande amor. Fiquei um pouco enciumada e ele, percebendo, falou gracioso.
- Depois da minha Eveline, tu és a mulher mais bela que conheci. Aliás, tenho percebido mais cores em ti Clarissa. Ele sempre pronunciava meu nome.
Fiquei sem graça com a naturalidade daquele homem estranho, mas encantador. Fazia anos que não conversava com alguém de forma tão íntima. Na verdade, no meu mundo de livros, não existiam pessoas reais, mas, após os encontros com o estranho Honoré, passei a sorrir e percebi que os carrancudos da biblioteca até começaram a notar minha presença, ou eu a deles. Contudo, a felicidade agora estava nos trinta minutos com Honoré.
Honoré temia as mulheres, principalmente as maduras. Eu temia os homens. Honoré escrevia muito. Eu lia muito.
Quanta coisa se pode contar em trinta minutos. Como eram interessantes as histórias dele. Eu não sabia seu sobrenome, quem ele realmente era, mas parecia que eu o conhecia. Eu percebia sua essência e certo tom de tragicomédia fazia com que eu o achasse familiar.
Numa das últimas noites em que nos encontramos, o assunto girava sobre a solidão. Assunto que dominava já que vivia como se estivesse morta.
- Talvez o espelho te diga que o tempo passou, Clarissa, mas, está só começando. O entusiasmo é tudo o que não se pode perder - concluiu.
Os tons misteriosos de Honoré me encantavam e eu passava o dia meditando com suas palavras, enquanto catalogava livros.
Assim que desse arrumaria o jardim.
Ao cabo de duas semanas, saí no horário de sempre e encontrei Honoré. Observei-o de longe. Ele me parecia translúcido. Era como se eu divisasse uma imagem desaparecendo.
Ao chegar mais próximo a impressão diminuiu, mas pude perceber nele um olhar de despedida.
Caminhamos ate à ponte e ele, como sempre parou um pouco antes. Segurou minhas mãos frias e disse:
- Acho que não nos veremos mais. Atravessa a bruma e não olha para trás.
Como autômato, segui pela ponte, caminhando lentamente, atravessando a neblina que impedia se visse o outro lado.
Desobediente, me virei. Ele já não estava lá. Na noite seguinte fiz o trajeto sozinha, mas já não era eu quem caminhava. Era Clarissa. Sorri com esse pensamento.
Algumas semanas se passaram e numa tarde de biblioteca cheia, não pude deixar de perceber que um jovem professor me olhava de quando em vez. Ele era novo na universidade e havia escolhido um livro de Balzac. Lia e me olhava. Na saída recebi o livro e nossas mãos se tocaram. Um pouco sem graça, falei:
-Clarissa.
E ele:
- Giácomo
Naquela noite caminhamos juntos. A mesma bruma. Um pouco menos de silêncio. Conversa, sorrisos, passos lentos e Giácomo atravessou a ponte.

Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

A árvore do bem e do mal



"E se um dentre vós pretende punir em nome da retidão e pôr o machado na árvore do mal, que considere também as raízes da árvore”.(Gibran Khalil Gibran).


Outubro de 1990. Fuad tinha dois filhos. Um menino surdo e uma menina lesada. Os pequenos se reconciliavam diariamente. Fraternidade onde antes se viu drama, porque a história não começa aqui, mas alguns anos antes, no Líbano...

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A tarde ensolarada convidava a um descanso. Mas naquela tarde não era descanso que Aziza procurava. Em seus pensamentos ressoava a sentença do pai:
-Casa este ano sim! Casa com Sunir como combinado.
Não podia argumentar. O casamento havia sido combinado desde quando eram crianças e Aziza jamais poderia contrariar o pai.
As lágrimas caíam, mas não conseguiam abrandar aquela quentura que Aziza sentia quando pensava em renunciar a Saumed, irmão de Sunir que tinha partido para o Brasil há algumas semanas.
A moça estava com 15 anos e a partida de Saumed selava o destino.
Os dias se seguiram sem agitação e os meses passaram num ápice.
Uma semana antes do casamento Aziza foi enviada para a casa de uma prima no campo, a fim de se preparar para as festividades que durariam três dias e foi lá que novamente se encontrou com Saumed. Surpreendida no parreiral o moço lhe deu a conhecer que ambos partiriam para o Brasil e lá se casariam.
Assim foi. Para desespero geral os dois jovens deixavam sua pátria e partiam cheios de expectativa. Apaixonados.
O ano era 1920 e a viagem para o Brasil era feita de navio. Levavam-se meses no mar e durante a viagem os jovens enamorados acabaram consumando o casamento.
O casal mal conseguia esconder a paixão e a moça suspirava pelo convés. Aziza sentia-se livre do jugo do pai e nela brotavam esperança e devoção.
Chegaram ao Brasil e como viajavam de terceira classe desembarcaram na Ilha das Flores. Após a quarentena seguiram de trem para o Rio Grande do Sul onde Saumed já tinha casa e emprego.
Durante algumas semanas Aziza e Saumed eram só carícias, o que durou pouco. Aziza acabou se tomando de amores por um alemão, de nome Ernesto.

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Ernesto e Saumed tinham se conhecido na primeira viagem do jovem libanês e fizeram uma espécie de amizade, muito prejudicada pelo fato de que um não entendia a língua do outro.
Ernesto viajava com a esposa e a sogra, mas as duas acabaram sofrendo um acidente. Caíram do navio.
O alemão desembarcou no Brasil sozinho e durante algumas semanas contou com a hospitalidade de familiares de Saumed, até que conseguisse se estabelecer como ferreiro, seu ofício na pátria de origem.

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Casaram-se então Aziza e Ernesto, passando a morar nos fundos da Estação Ferroviária.
A moça não sentia remorso. Ela não colocava limites para felicidade.
Saumed voltou para sua aldeia no Líbano e acabou se reconciliando com a família. Foi recebido por Sunir que achou já ter sido aplicado o castigo devido. E mais. Juntos planejaram se vingar de Aziza. Saumed trazia o coração amarrotado pela moça e Sunir carregava a vergonha de ter sido desprezado. Na aldeia, nenhuma moça direita se casaria com um largado.
Passado um tempo, os dois irmãos voltaram para o Brasil, se estabeleceram na casinha de Sunir e passaram a seguir Aziza.
Durante o horário de almoço, ficavam sentados na praça, traçando planos de morte enquanto viam Aziza passar para o mercado ou em direção ao empório.
Após alguns dias de vigia perceberam que a desgraçada estava grávida, e como cristãos que eram, decidiram aguardar que a criança nascesse.
E assim nasceram Frank, Ernesto Filho, Sabine, Alberto e Fuad e durante anos os irmãos aguardaram.
Aziza que havia percebido a espreita cuidara para que sempre tivesse um filho pela mão e outro no ventre.
O tempo passou e os irmãos acabaram se casando com moças brasileiras, se estabelecendo como negociantes respeitáveis.
Sunir tinha um boteco onde fazia quitutes que tinha aprendido com a mãe no Líbano. Seu modesto Trípole era freqüentado por todos e Sunir não deixava faltar o Kibe a Esfiha e maravilhosas pastas. Não faltava também o pastel e o cafezinho, dando um toque brasileiro para o local.
Saumed se tornara padeiro e todas as manhãs era possível vê-lo a pé, acompanhando a carroça carregada de pães. - Uma coroa para dona Mimosa, uma trança para as irmãs Bella, dez paezinhos para a família do seu Alfredinho...Tudo enrolado em papel de seda e entregue a domicílio antes das 6 da manhã pelo “Turco”, como ficou conhecido, e seu cavalo Nassif que já sabia de cor cada endereço
Aos domingos as famílias se reuniam e almoçavam embaixo do parreiral. Sunir jurava já ter visto Aziza espiando o almoço, mas fora isso, não mais tiveram notícias dela. Os planos de assassinato foram cancelados. Um alívio para os irmãos.
Para a libanesa Aziza, as coisas andaram diferente. Para ela a alegria tivera um preço pago com um poço de lágrimas. Durante os anos em que Aziza esteve grávida, Ernesto se afastou passando a apresentar reações estranhas. Mostrava-se irritadiço com a mulher e chegava a ficar uma semana fora de casa, quando se sabia estava na casa da Francesa que era jovem, bonita e sem compromisso com a moral.
Ernesto passou das injúrias à agressão física e Aziza não mais saía de casa envergonhada por tantos hematomas. As agressões se tornaram cada vez mais freqüentes. Até os filhos incomodavam o homenzarrão. Nem mesmo a pequena Sabine conseguia acalmar o pai.
Numa tarde de outono, ridiculamente bonita, Aziza estava sentada cerzindo algumas meias à beira do fogão quando Ernesto entrou na casa. Estava conturbado e depois de proferir algumas injúrias arrastou a mulher para fora em direção à ponte e depois para o mato.
Sunir e Saumed que passavam pela ponte viram quando o alemão entrou no mato com a mulher pelos cabelos.
Dela não se ouvia nem choro.
Entraram na mata e lá presenciaram a brutalidade de Ernesto que surrou Aziza até à morte, não sem antes bradar que a havia recebido impura. Acusou-a por sua infelicidade e por certo a cada golpe sentia o perfume da Francesa com quem pretendia se casar tão logo ficasse viúvo.
Saumed e Sunir viram, mas nada fizeram. Além do medo, havia um certo sentimento de justiça na cena. Contudo, não mais queriam a morte da moça.
Passada meia-hora o alemão, o homem fez cessar os golpes e rompeu-se em prantos e justificativas que, no entanto, não mais ressucitariam seu sossego.
Os dois observadores também choravam, não se sabe se pela morte ou pela violência, mas como estavam permaneceram até que Ernesto deixasse o mato.
Sunir deixou o esconderijo e junto com o irmão, carregou o corpo da moça, providenciando uma cova funda e uma cruz bem pequenininha. Afinal eram cristãos.
Apressaram-se em deixar a mata com medo de que alguém aparecesse e acabassem sendo acusados pelo assassinato, mas ao passar pelo local onde pouco antes Aziza perecera nas mãos do grandalhão, sentiram que alguém os observava. Perceberam então cinco pares de olhinhos assustados atrás da vegetação. Eram os filhos de Aziza que por certo tinham presenciado tudo e estavam ali, órfãos.
Como a cidade era pequena, resolveram levar as crianças para a casa de Sunir que ficava mais afastada. Sunir contou com o apoio da mulher e ambos providenciaram levar as crianças para longe.
Sabine foi para um internato em Santa Maria e os irmãos para capital.
Ninguém na cidade se preocupou com o desaparecimento de Aziza ou dos filhos e Ernesto seguiu vida alegremente enlutado.
Mas a Francesa, constatando o gênio de alemão, deixou a cidade, estabelecendo-se com suas meninas em Rio Pardo.
Os meses foram se passando e os anos prejudicaram a razão do alemão (que já não era muita). Um Ernesto perturbado, era visto na ponte próximo a mata falando sozinho. Chorava e urrava coisas, durante horas. Depois caminhava como bêbado pelas ruas até que era recolhido por algum dos poucos amigos que ainda lhe restavam.
Já não mais trabalhava e contava com a ajuda destes poucos amigos para comer.
Um deles era o Sr. Pasqual, o farmacêutico, que contava como Ernesto perdera o juízo. Dizia que o homão falava com os filhos e que estes eram diabinhos que lhe puxavam as sobrancelhas. Algumas vezes descrevia Aziza como um ser dos infernos que lhe atormentava dia e noite.
Uma noite o alemão chamou o padre e confessou o crime. Pedia que o vigário que ajudasse a recuperar o juízo.
O padre, sem disfarçar o escárnio, não acreditava que Ernesto recuperaria razão. Não acreditava que ele sequer havia perdido.
-Tu já visse, amigo Pasqual, louco que sabe que é louco?
Com o tempo, o homem ficou insuportável. Não se banhava e passava as noites bramindo que Aziza o deixasse em paz e levasse os bastardinhos.
Foi o que bastou para que os amigos o internassem num manicômio.
Numa noite de 1948, o alemão teve uma crise aguda, quebrando janelas e camas. Não podia ser contido por nenhuma força humana e descendo em desabalada carreira as escadas da instituição manicomial, rompeu todas as barreiras que encontrava vindo a atacar uma freira que chegava para as visitas da noite.
O homenzarrão gritando, nu e descontrolado, agarrou o pescoço da irmã e somente não lhe tirou a vida devido a um tiro certeiro na têmpora.
Alguns minutos depois, foram prestadas as declarações pelo oficial Fuad Kirtens que justificava ter atirado a fim de salvar a vida de irmã Sabine que chegava na hora da crise.
Prestados os esclarecimentos os dois deixaram a sala do supervisor e a freira se virando para Fuad determinou:
- Levemos nosso pai para ser enterrado com nossa mãe. Podemos até fazer uma cruz bem pequenininha. Afinal somos cristãos.


Gilda Satte Alam Severi Cardoso

MAGICOS VERANEIOS POR Gilda Cardoso



Acordei com um “frio na barriga”. Primeiro dia de férias e logo mamãe nos chamaria para tomar café e irmos para o Laranjal.
Laranjal era sinônimo de liberdade. Lá eu podia me espichar mais com minha bicicleta e quem sabe até fazer a volta na quadra.
Como sempre, faríamos as malas e logo mamãe começaria a retirar as roupas em excesso.
Olhei o relógio e já eram 9h. O que teria acontecido?
Minha irmã continuava dormindo e resolvi levantar para procurar meus pais.
O frio na barriga havia se transformado em “bola no estômago” e eu pressentia que havia algo errado.
Desci as escadas e vi meus pais conversando com dois senhores do Corpo de Bombeiros. Mamãe estava cabisbaixa. Parecia que a conversa não era boa.
Fiquei ali uns instantes, mas como a conversava estava muito demorada decidi chegar na sala para ouvir melhor.
Comecei a ouvir a conversa e a bola no estômago se transformou em nó na garganta.
Ouvi bem quando um dos bombeiros falou que o incêndio havia começado por volta de 04 horas da manhã. Pouca coisa havia escapado.
Logo pensei no Simpático, um cachorrinho que havia nos adotado no verão passado e agora era o guardião da casa.
Como se meus pensamentos tivessem sido captados o mais jovem dos bombeiros comentou que o “animalzinho estava bem e na casa do vizinho”.
Fiquei aliviada, mas ainda assim frustrada. Foi a primeira vez nos meus 12 anos de vida que pude entender bem o significado de frustração. Não que eu já não tivesse sentido pequenas insatisfações, mas aquela me havia chegado como algo maior. Dias de expectativa, planos, projetos, tudo parecia interrompido e de uma forma diferente alguém havia destruído nosso pequeno paraíso.
Girei nos calcanhares e corri para acordar minha irmã. Ela demorou um pouco a entender exigindo mais de uma repetição. Sua primeira pergunta foi:
- E o Pitinho?
Respondi:
- Não sei! Mas temos de esperar pelo pior.
Pitinho era como carinhosamente chamávamos um imenso Eucalipto que ganháramos há alguns anos e que havíamos plantado em frente a casa com direito a ritual e oferendas. A pequena árvore, não mais que um galhinho, ganhou até um bolo de chocolate representando as boas vindas.
Nós realmente tínhamos a capacidade de criar um mundo a parte no Laranjal. Um lugar mágico onde tudo tinha nome e até um tipo de “vida”. O Pitinho, nossa pequena floresta particular no mato em frente, um mão-pelada que algumas vezes invadia nossa casa e corria pelas tesouras apavorado com a nossa gritaria, alguns beija-flores que nos encantavam com sua graciosidade. Era um lugar que não poderíamos esquecer.
O veraneio era também o momento de ficarmos juntos. Papai e mamãe brigavam menos, recebíamos muitas visitas e o almoço não tinha hora para acontecer. Era fantástico!
No jardim em frente, papai construiu um caminho com tijolos. Logo ele virou uma estrada mágica, de onde não podíamos sair para não cairmos no “pântano” que era na verdade somente grama. Nos fundos da casa havia um enigmático milharal onde, segundo, nossa imaginação, deveriam morar espécies animais exóticas e quem sabe até perigosas. Sempre apostávamos para ver quem conseguiria entrar naquele tapete verde e dourado sem sentir medo ou gritar histericamente.
Mamãe entrou no quarto, visivelmente abalada, mas logo percebeu pelo nosso semblante que já sabíamos do ocorrido.
Primeiro veio a explicação de que nosso veraneio seria suspenso. Senti algo como sopa quente subindo pelo estômago até atingir minhas orelhas.
No início da tarde, sob protestos de papai, fomos todos até lá. Naquele tempo, a estrada era diferente, uma mão para ir e outra para voltar. Era feita de paralelepípedos e no caminho víamos muito poucas casas.
Chegamos em frente à nossa casa e talvez pelo fato de haver muita vegetação, num primeiro momento nos pareceu tudo normal, não fosse por um monte de entulhos queimados que estavam depositados junto ao meio fio.
O Pitinho estava e lá e sorria para nós. Ele realmente era imponente. Anos depois teve de ser arrancado, pois passou a representar um perigo em dias de tempestade e vento.
Uns latidos esganiçados e logo sentimos a chegada buliçosa do pequeno Simpático.
Enfim algumas alegrias naquele dia que foi uma montanha – russa de emoções.
Entramos com cuidado. Papai na frente. Logo pudemos ver o telhado caído na sala e muitos móveis queimados. Ainda se podia sentir um pouco de calor e por isso não chegamos até o fundo da casa.
Da sala pude enxergar o banheiro. Estava intacto e a cozinha também. Ao menos o fogo não tinha sido guloso, poupando algumas lembranças.
A casa ficava em um terreno enorme, tendo sido construída de modo a que havia muito espaço na rua.
Ouvimos mamãe nos chamando e corremos ao seu encontro. O jardim lateral também havia sido poupado.
- Mas mamãe...E o veraneio? Essa foi a pergunta mais idiota da minha irmã.
- Não tem veraneio, boba. Queimou tudo!! Vamos dormir onde? No chão?
Ela me olhou lacrimosa e por incrível que pareça deu a idéia mais brilhante impossível:
- Porque a gente não brinca de acampamento?
Mamãe olhou surpresa para a pequena e disse:
- Boa idéia! Montamos a barraca aqui. Podemos usar o banheiro e assim acompanhamos a reconstrução de tudo.
Senti vontade de rir de forma exagerada. Aquele seria o melhor de todos os veraneios. Mais um para nossa imensa lista de situações enigmáticas fruto da imaginação infantil que não gasta toda massa cinzenta na frente de uma TV.
Enfim minhas férias começariam. Enfim o Laranjal.

Sábado, 22 de Setembro de 2007

Narciso reverso


Sentei devagar, etérea e muda. A cadeira de espaldar alto ficava no canto da sala, de frente para uma cristaleira antiga com o fundo espelhado que logo refletiu minha imagem. As prateleiras que sustentavam os cristais cortavam minha imagem em vários pedaços. Desencontro total. Meus braços divididos em partes nunca se encaixavam. Eu brincava com as pernas, que separadas dos pés, balançavam os chinelos. As mãos sobre os joelhos se multiplicavam infinitamente e cada vez menores. Encaixava o pescoço comprido no pé das taças altas, baixava a cabeça e o movimento deixava meus olhos enormes num rosto sem testa. Acomodei a boca sobre o reflexo de uma tigela e meus lábios ainda mais grossos sorriram disformes e independentes enquanto a prateleira de baixo seccionava meu queixo.
Não sei por quanto tempo permaneci ali, arrebatada pela reflexão invertida.
Vieram me buscar. Levantei como se inteira, mas sabia que estava aos pedaços. (Belagally)

Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

AJUDA-TE!


Eram 21h e Gwenda acabara de entrar em casa. Silêncio. Parece que não havia mais ninguém.
Subiu para o quarto, tomou um banho e se deitou. Estava muito cansada e adormeceu logo.
Despertou com batidas na porta. Olhou o relógio, eram 23h. Seu marido estava viajando e seus filhos já deveriam estar dormindo.
Desceu as escadas e um pouco assustada abriu uma fresta da portinhola. Na rua uma jovem senhora, de feições conhecidas a olhava sorrindo.
- Tia Rebeca! A senhora aqui, a esta hora! Entre, entre, é perigoso ficar na rua tão tarde da noite.
A jovem senhora entrou e silenciosamente se dirigiu para a saleta, seguida por Gwenda ainda atordoada com a visita e também por ter acordado de supetão.
Tia Rebeca sem se sentar disse a Gwenda que esta precisava conversar com sua prima Briana.
Rapidamente explicou que sua filha Briana estava muito deprimida e há dias não saía de casa. Comentou que Briana tinha chegado a pensar em suicídio e precisava de auxílio urgente.
Gwenda, com o olhar vago e ainda parecendo confusa disse em tom pausado:
- Amanhã posso dar uma passadinha na casa dela. Fica perto daqui não? Já faz algum tempo que não nos vemos e talvez ela não se agrade de uma visita a esta hora.
- Tu não entendeste Gwenda, precisamos ir até lá agora!
Como um autômato, Gwenda assentiu. Levantou-se e dirigiu-se até a porta convidando a tia para que ambas fossem ter com a prima.
Gwenda dirigiu algumas quadras e parou o carro em frente a uma casa muito simpática. Daquelas com cerquinha na frente e com um jardim que outrora deveria ter sido muito bem cuidado. No momento estava um pouco largado.
As duas desceram e Gwenda apertou a campainha e com um certo constrangimento sorriu quando a prima olhou pela janelinha.
- Boa noite Briana!
A prima não respondeu.
- Bri, abre a porta, está frio aqui fora!
Nada.
Gwenda forçou um pouco a porta e esta se abriu, propiciando a que as duas entrassem.
A casa estava escura e silenciosa e Gwenda sentiu um forte cheiro de gás vindo da cozinha. Correram para lá e viram Briana caída, inconsciente, talvez até morta. Gwenda correu para o telefone e chamou socorro.
Em poucos minutos a prima estava sendo atendida e pelo que parecia iria se recuperar.
Uma simpática enfermeira perguntou se Gwenda era a familiar mais próxima e após olhar de esguelha para a tia se mantinha em silêncio informou que sim.
Explicou como havia encontrado a prima e que esta não estava em um bom momento. Deixou telefone e endereço para qualquer eventualidade e prometeu ir até o hospital na manhã seguinte.
Quando todos saíram, Gwenda se voltou para a tia com ar interrogativo.
Tia Rebeca entendeu as dúvidas da sobrinha, mas permaneceu em silêncio deixando que esta iniciasse a conversa.
- A senhora sabia que Briana estava precisando de ajuda. Como?? Mais alguns minutos e ela estaria morta.
- Sim. Por isso eu disse que era urgente. Briana nunca foi muito boa com perdas o que talvez explique o fato de nunca ter se casado. Eu a ouço chorar todas as noites, rogando por alívio, mas na verdade ele só virá através de companhia.
- Mas ela nunca foi dada a conviver com a família tia. Veja que não moramos tão longe assim e mesmo assim não vejo há mais de um ano. A última vez foi... Ah! No velório!
Ao dizer isso, Gwenda arregalou os olhos e repetiu quase sussurrando:
- No velório da tia Rebeca!
Dizendo isso, Gwenda acordou. O suor escorrendo pelo pescoço e o coração parecendo que ia rebentar o peito de tão acelerado.
- Que sonho!! Preciso rezar pela minha tia.
Olhou o relógio. Eram 7h e resolveu levantar para chegar mais cedo na escola.
Foi até a cozinha e encontrou Maria acordada terminando de colocar a mesa.
Não fez nenhum comentário sobre o sonho.
Depois do café, se dirigiu para o quarto e ao tirar o hobby percebeu que no bolso haviam alguns papeizinhos dobrados.
Ao ler os papéis empalideceu. Eram os relatórios de atendimento médico de Briana na noite anterior e um cartão com o nome da médica e o hospital para onde a prima foi levada.
Afinal, havia estado com ela na noite anterior. Não era sonho. Lembrou de tia Rebeca e um suave arrepio subiu a espinha.
Vestiu-se rápido e se dirigiu ao Hospital de Caridade São José.
Encontrou Briana já acordada e esta quando a viu corou, mostrando-se constrangida.
- Gwen. Que bom que vieste cedo. Dra. Luciana me disse que talvez desses uma passada. Olha. Obrigada. Não se como, mas obrigada.
Gwenda abraçou a prima e enxugando uma lágrima insistente sentou na beirada da cama.
- Bri. Ontem a noite tia Rebeca foi me buscar...
Briana olhou-a como quem não estava entendendo.
- Ela disse que tu precisavas de ajuda e que pensavas em te matar. Eu saí com ela. Ta, tu achas que enlouqueci né?
Briana começou a chorar. Gwenda segurou as mãos da prima e continuo:
- Eu achei que tinha sonhado, mas eu fui até tua casa e ...
- Não precisa falar mais nada. Eu venho chorando noites e noites. Não consigo dormir. Sinto falta da minha mãe. Noite passada eu tive um sonho estranho. Estávamos, eu, mamãe e tu brincando naquele pátio que tínhamos na outra casa. Lembra? Éramos pequenas. De repente caí num poço seco. Cheguei a sentir o cheiro da terra úmida do fundo do poço e enxergava a abertura longe como um pequeno foco de luz.
Senti quando alguém me segurou no colo e eu consegui sair.
Acordei aqui.
Não sei como cheguei a este ponto, mas preciso de ajuda. Não agüento mais viver sozinha.
Gwenda, ainda atordoada com todo acontecido disse a prima que ela não estava sozinha e que as duas iriam se ajudar dali para frente.
Afinal, Gwenda não queria outras visitas noturnas da tia morta.
Combinaram que aquilo tudo ficaria em segredo, senão Gwenda poderia até ser internada pela família.
Passados alguns minutos as duas estavam rindo. Conversaram mais um pouco e Gwenda prometeu vir buscar Briana à tardinha, para levá-la para casa.
Quando entrou no carro, sentiu um perfume diferente que lembrou tia Rebeca.
Sorriu e falou em voz alta:
- De nada!



Sábado, 25 de Agosto de 2007

MOMENTO NARCISISTA

A vida sempre foi uma sucessão de acontecimentos a me atingir profundamente.
O que me aconteceu na infância, a enfermidade, marcou-me não só na memória, como no rosto para que eu não esqueça nunca do momento em que me olhei no espelho e não me encontrei, não me vi, não me reconheci no rosto desfigurado. Não encontrei a face que todos diziam ser angelical -eu também achava – os olhos de um azul intenso não me viam.
Depois, bem mais tarde, a morte de meu pai jogou-me na dura realidade da luta pela sobrevivência.
Os amores que tive sem os desejar e os que desejei em vão.
Todos os fatos me atingem e me arrastam como objetos levados na correnteza sem qualquer proteção.
Ás vezes achamos um galho, para nos segurarmos, mas logo ele vai adiante e somos jogados de novo à própria sorte.
O tempo passa, a beleza desaparece, os amores se vão e continuamos como sempre estivemos: sós. Até que o ciclo se complete.
Nascemos, vivemos e morremos sozinhos. É um processo individual, não inter-pessoal. Ninguém vai morrer em meu lugar.
Deveria me sentir feliz. Significa que me basto. O resto é cenário. (Isabel Vargas)

Reflexões de Lúcia Brasil

(I)
Sempre teve curiosidade de saber como é sentir a vida no ventre, e agora, surpreendida por ela, busca-a todo dia quando acorda, devagar para não assustar-se, esperando alguma sutil nuance. Procura aquela aura de paz e brandura que recobre as prenhes. Fica horas em silencio, fecha os olhos, respira pouco para não perder o momento em que ela lhe moverá a alma. Mas a vida externa é barulhenta e faz exigências, pede atenção. Volta então à superfície. Não sentiu nada! Tudo igual! Trabalho, marido, afazeres domésticos, compromissos sociais.
Como pode a vida e a morte serem tão antagônicas e tão conformes? Sentiu a morte tão intensa e consistente aos dez anos, mas não percebe a vida aos quarenta! A morte é cabal, não deixa dúvidas, não hesita. A vida é mais ardilosa, difícil de manear, e agora se esconde. Para brincar ou assustar?
(II)
“As lágrima são inútil dotô... se foi a única pessoa que se importava com a gente”.
Lembro a dor áspera na voz de minha mãe. Lembro a pequenez de seu corpo diante da figura imponente do dono da empreiteira. Com apenas 10 anos já conheci a dor, ficamos íntimas muito rápido, passávamos a noite juntas, olhos arregalados, coração batendo lento e forte. Formamos uma dupla. Piloto e co-piloto numa aventura de rally. Era clara a idéia de que só tínhamos obstáculos pela frente e a morte de meu pai confirmava isto.
Alguns dias depois olhei no dicionário da escola: inútil - sem serventia, estéril.
Não satisfeita com a definição, procurei então estéril - que não dá frutos, improdutivo, sem valor!
Quando com 23 anos saí do médico com diagnóstico de estéril, conclui que eu era ovo gorado. Não chorei. As lágrimas são estéreis, e como eu, inúteis.

Terça-feira, 21 de Agosto de 2007


Cefaléia. Lucia ergueu-se da cama com a intenção de pedir um comprimido para Dílson, mas ele já havia saído. Cedo como sempre. Seus pés pareciam mais pesados e duros, náuseas. No banheiro, engoliu um comprimido com água na concha da mão. O espelho refletiu uma imagem que a agradou, cabelos desenvoltos, pele muito branca e lábios mais finos. Apesar do leve mal estar ficou mais tempo a observar-se. Nua. Seus seios estavam maiores? Teria engordado? Dobrou o pescoço rapidamente e levantou o queixo como quem posa com desenvoltura para uma foto. Sentiu-se bonita. Voltou para a cama.
-Hoje não vou trabalhar. Sinto-me agradavelmente mal.
Dormiu pesado e acordou assustada com o avançado da hora! Lorena na cozinha e nem um bater de pratos para acorda-la!
Ligou para Dílson no supermercado que a encheu de mimos como sempre!
- Sabes que não precisas mais trabalhar meu amor! Saio todo dia de mansinho e deixo bilhetes para que Lorena não te acorde! Hoje me surpreendi com tua ausência.
Respondeu ao carinho do marido com uma delicadeza qualquer. Sentou-se à mesa do café, sentia-se bem. Já sem dor e com fome.
Em vinte e cinco anos, esta é a segunda vez que não vai trabalhar. A primeira foi há cinco, quando sua mãe morreu.
Súbito, náusea. Parou de comer e ligou para seu médico.
-Às 16h posso vê-la.
Voltou para a cama. Com a mão em baixo do travesseiro puxou o livro que tinha começado na noite anterior. Já se sentia muito bem!
-Acho que estou ficando malandra!
Saiu do consultório do médico irritada e contrariada!
-Pediu-me teste de gravidez! Já havia feito exaustivos exames com especialistas em infertilidade. Por conta de uma severa endometriose que lhe obstruira as trompas, nunca poderia ter filhos. Falara isto na consulta! E também tinha uma vida sexual tão esporádica! Há quase dois meses não... Mas isto não contara ao médico.
Também não contou nada a Dílson. Naquela noite, não procurou desculpar-se com dor de cabeça ou cansaço. Cedeu aos afagos do marido facilmente.
Abriu o envelope do laboratório com o mesmo descaso que abre inúmeras correspondências que chegam ao escritório diariamente.
POSITIVO. Tomada pela surpresa e achando ter algo errado, certifica-se do seu nome, o nome do médico e a data que colhera o sangue. Corre ao laboratório. Quer repetir! Não há necessidade explica a bioquímica, o método é de total confiança.
Lucia respira mal, sente-se sufocada e com medo. Deixa o carro e pega um táxi. Pára em frente ao prédio de Luis Roberto. Desce, hesita... Caminha duas quadras e entra numa confeitaria.
Olhava sem enxergar as pessoas que passavam na calçada, uma vertigem quase a derrubou, a moça que atendia as mesas, delicadamente ofereceu ajuda, tomou água, depois chá e por fim café. Aos poucos tentava entender o que acontecia. Procurou o ventre com a mão, não sentia nada! Exausta, assustada e só, tomou a decisão do silêncio.
Pagou a conta, e saiu a caminhar rápido pela calçada. Andou quinze quadras até o estacionamento onde pegou seu carro. O sol já se punha e os veículos já acendiam as luzes, porém Lucia não ligou os faróis, ao entrar na garagem bateu levemente com o espelho lateral no pilar. Desceu, abriu o feixe interno da bolsa e colocou o envelope do laboratório. Passou as mãos no rosto e continuou-se nos cabelos, mexeu os ombros para cima e para baixo algumas vezes, depois ajeitou a gola da blusa. Entrou pela cozinha escura, sala, escritório sem acender nenhuma luz. No quarto ligou o abajur, e deitada de lado sobre a cama chorou abraçada a um porta-retrato onde a foto de uma mulher de feições indígenas, pele escura, cabelos brancos e sorriso nos lábios era fracamente iluminada. Belagally

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

“A vida é um negócio muito perigoso” Diadorim – G. Ramos

Beatriz estava decidida a cumprir o prometido a si mesma. Fez demorada leitura dos jornais do dia, onde assinalara alguns anúncios para buscar emprego. Antenor fingia ignorá-la enquanto se aprontava para o trabalho. Com determinação foi para o computador e lá ficou por muito tempo absorvida com a tarefa.
Estava tranqüila.
Sentia que tinha tomado a decisão acertada.
Não era movida por qualquer outro sentimento que não fosse o de sentir-se útil, produtiva, dona de si, de seus pensamentos, responsável por suas ações, em síntese, viva.
Estava se sentindo mais leve, com a perspectiva de um futuro com mais auto-conhecimento de possíveis realizações profissionais, o que lhe proporcionaria satisfação pessoal, alegria de viver e paz interior.
Não devia desconsiderar que poderia não conseguir nada, seus planos não darem certo e sentir-se frustrada, mas devia tentar afinal viver é correr riscos.
Este foi o segundo passo que dera para começar as mudanças. O primeiro foi iniciar a terapia.
As sementes estavam sendo plantadas. Agora tinha que esperar que elas frutificassem. Dependia muito dela, das atitudes que tomaria para viabilizar estes projetos. Contava com a sorte também. Fez um leve sorriso. Ainda bem que um dia não é igual ao outro.
Isabel C. S. Vargas